Ser empreendedor – O sonho americano, a realidade portuguesa

Quase todos nós sonhamos ou já sonhámos, em determinada altura da nossa vida, em ser empreendedores. Este sonho acontece porque julgamos que ser empreendedor é uma coisa maravilhosa. Este julgamento acontece porque a sociedade nos educou assim. Antigamente, a imagem que passava de um empreendedor, era a de um grande empresário, que era patrão e que tinha uma vida boa, ou, aparentemente boa. Hoje em dia, a facilidade com que se criam empresas e se montam negócios é tanta, que parece realmente que isto é uma coisa simples e que qualquer um está preparado para ser empreendedor. Para não falar que os termos empreendedorismo e empreendedor são cada vez mais utilizados e incutidos no mercado, como que, se quem não é empreendedor, fosse um incapaz ou um menos capaz. Está tudo certo. Na realidade nós só vemos aquilo que chega ao exterior, não temos conhecimento de todo o trabalho que existe de backoffice para que as empresas consigam mostrar ao mercado os seus sucessos.

ser empreendedor

Trabalhamos 8 horas por dia para um dia ser patrões e trabalhar 12. Esta é uma frase muito conhecida e que espelha aquilo que acontece e que muitas vezes é ignorado por quem sonha com o empreendedorismo.

Há quem queira ser empreendedor pela facilidade aparente em que a sua vida se transforma e pelo “dinheiro fácil” que daí pode vir. Mas há também quem queira ser empreendedor porque quer criar, quer inovar, quer transformar quer lutar por fazer acontecer. Para estes últimos o processo pode ser um pouco menos doloroso, pois o objetivo de base não foi o “ter uma vida tranquila” e quando são surpreendidos no meio do processo, muitas vezes até ganham mais garra para superar as adversidades do que quem sonha empreender para ser patrão. Ambos estão certos, não temos que empreender todos pelos mesmos motivos, e sim, ganhar dinheiro tem que ser comum a ambos. Não temos que lutar todos pelos mesmos ideais. Temos sim, todos, que lutar para conquistar os nossos sonhos.

american dream

Ser empreendedor – O sonho americano, a realidade portuguesa

Ser empreendedor, criar empresas, criar startups (estão na moda), ser empresário, não é uma opção de vida melhor ou pior que qualquer outra. Todas as profissões têm prós e contras. A grande diferença de ser empreendedor está, muitas vezes, na maioria das vezes aliás, ser um acumular de profissões numa só pessoa. Muitas dessas profissões nunca pensámos em exercer, nunca estudámos para isso, nem nunca imaginámos no nosso sonho de empreender que elas iriam ser necessárias para o sucesso dos nossos negócios. Será que algum empreendedor estudou Empreendedorismo e Inovação, Gestão de empresas, Gestão de Recursos Humanos, Contabilidade e Finanças, Marketing e Publicidade? Será que uma só pessoa consegue exercer todas estas atividades em simultâneo e ser o melhor nelas todas? Bem sei que, para um bom negócio funcionar é preciso reunir uma equipa de trabalho com profissionais qualificados em todas estas valências, mas, será que quando um negócio nasce existe capital para que as melhores condições sejam asseguradas?

Então, se olharmos para a realidade portuguesa, estas necessidades aumentam exponencialmente. Não quero com isto dizer que somos mauzinhos uns para os outros, quero apenas constatar uma realidade com que praticamente todos os empreendedores deste país já se depararam. Quantos de nós não ouvimos já dizer que quem quer ter um negócio não quer é trabalhar? E a quantos empreendedores não terá sido dito que a sua ideia não fazia sentido? E quando o negócio funciona, quantos terão ouvido que são pessoas com sorte?

E se é esta a visão da família e amigos, como será a visão dos bancos, das instituições financeiras e dos investidores em Portugal? Portugal não está preparado culturalmente para o empreendedorismo. Querer ser empresário ou querer ganhar muito dinheiro ainda é pecado em Portugal. O emprego certo das nove às cinco, o emprego na função pública e uma licenciatura terminada numa área com boa saída profissional continuam a ser muito mais bem aceites pela sociedade que o “aventurismo” de empreender.

ser empreendedor

Vejamos pormenores simples: Um funcionário com um salário médio consegue mais facilmente um crédito habitação que um empreendedor sem salário fixo (é verdade, no início de um negócio, dificilmente o empreendedor consegue um vencimento fixo). Um funcionário com folha de vencimento consegue arrendar uma casa. Parece uma coisa simples, mas muitas vezes o seu empregador tem dificuldade em conseguir. Se um funcionário perde o emprego, é ajudado pela Segurança Social, se um empreendedor perde o negócio, é trucidado pelas Finanças. Para ser funcionário, é preciso saber uma profissão, apresentar-se ao trabalho assídua e pontualmente e executar as tarefas para as quais foi contratado da melhor forma possível. Para ser empresário basta ir ao Registo Nacional de Pessoas Coletivas e em 10 minutos o processo estará concluído. Depois disto só precisa: pagar renda, pagar água, pagar eletricidade, pagar internet, pagar o equipamento de trabalho, pagar salários, pagar a fornecedores, pagar IRS, pagar retenção na fonte, pagar pagamento por conta e pagamento especial por conta, tudo isto, quer o seu negócio esteja já em fase de maturidade ou não, ou seja, quer ele gere dinheiro, ou não. E não, não pode contar com a belíssima ajuda das instituições financeiras portuguesas, pois elas não premeiam quem quer criar. Se um jovem empreendedor quiser começar um negócio, o crédito é-lhe negado porque ainda não tem provas dadas de que vai prosperar. E se por um acaso, o projeto já tiver alguma consistência e conseguir algum crédito bancário, o melhor é nunca falhar ou atrasar o pagamento, ou jamais poderá ser empreendedor em Portugal.

Para ser empreendedor é preciso essencialmente não ter medo e ser perseverante. Não ter medo para poder tentar, construir, errar, cair e aprender. E perseverante para levantar e tentar de novo, mesmo que o mundo esteja contra os sonhadores, obstinados e aventureiros.

Em relação ao sucesso, todos reparam, uns falam, outros aplaudem, uns invejam, outros dizem que é sorte, mas poucos param para pensar que ter sorte dá muito trabalho.

Só por curiosidade, este é o significado da palavra empreender no dicionário de língua portuguesa: 1. decidir realizar algo (obra, negócio, tarefa, etc.) difícil ou perigosointentar   2. dar início apôr em execuçãolevar a cabo

Bons negócios!

Partilhar

Comentários