Startup, uma ideia ou um negócio?

A aproximação da data do Web Summit, a maior conferência tecnológica do mundo, que se realiza em Lisboa, levou-me a pensar um pouco mais profundamente acerca deste assombramento de tecnologia e Startups que preenche os nossos dias e do seu enquadramento na nossa realidade. A expressão Startup ou Start Up nasceu nos EUA e a sua utilização no contexto empresarial moderno é comum em todo o mundo. O primeiro registo da utilização da palavra Startup para a área de criação de negócios  tecnológicos de rápido crescimento, data de 1976 e foi utilizado pela revista Forbes.

O significado de Startup é um pouco abrangente se compararmos entre os inúmeros dicionários online, mas há uma definição em que praticamente todos convergem. Uma Startup é um projecto empresarial inovador incipiente, na área tecnológica, altamente escalável, que pressupõe um crescimento rápido e com altos valores de investimento inicial. Há ainda quem seja mais criterioso e defina Startup como “um pequeno arranque na Internet de 5 meses”. Mas há um ponto que todas as definições que encontrei de Startup referem: as Startups nascem para resolver um problema existente, têm altos custos iniciais e o investimento é de risco, pois o sucesso não é garantido.

“A startup é uma empresa que trabalha para resolver um problema onde a solução não é óbvia e o sucesso não é garantido”,  esta é a definição de Startup de Neil Blumenthal, co-fundador e co-CEO da Warby Parker, uma empresa de venda de óculos a um preço acessível e com caráter social, iniciada com um investimento de 2.500 dólares no Venture Initiation Program of the Wharton School of the University of Pennsylvania, e que, depois de várias rondas de investimento que ultrapassaram muitos milhões de dólares, foi em 2015 avaliada em 1.2 biliões de dólares.

“Startup é um estado de espírito, é quando as pessoas se juntam à empresa e tomam a decisão explícita de renunciar a estabilidade em troca da promessa de tremendo crescimento e a emoção de causar impacto imediato ” esta é a definição de Adora Cheung, co-fundadora e CEO da Homejoy, uma empresa que iniciou funções em São Francisco em 2010. A empresa que usava a tecnologia para aumentar a venda de serviços e produtos de limpeza a baixo custo, depois de receber investimentos de valor superior a 40 milhões de dólares e da expansão para o Reino Unido em 2014, encerrou a sua atividade em Julho de 2015 por dificuldades de rentabilizar o negócio e divergências legais com os funcionários.

Startup

Startups e a cultura

O termo, o modelo de negócio e a estrutura de investimento nasceu nos EUA, um país altamente virado para os destemidos, quer a nível empresarial e de inovação, quer a nível de investimento. Um país onde a cultura estimula o empreendedorismo e premeia os mais arrojados. Onde a cultura financeira assenta no jogo da potencialização das ideias e dos meios, correndo riscos e incentivando a inovação. Esta não é, de todo, a cultura conservadora europeia, e menos ainda a cultura portuguesa.

A vinda do Web Summit para Portugal abriu os olhos dos mais distraídos para o que se passa no mundo empresarial moderno. O facto de, agora as coisas não acontecerem só la fora, e até Lisboa ser contemplada com este evento, tem vindo a incentivar cada vez mais a modernização do nosso ecossistema. Mas, estará o nosso meio financeiro-cultural preparado para a propagação de Startups? Têm os investidores portugueses coragem de investir em negócios embrionários sem garantias de retorno?

O panorama está com certeza a melhorar, mas demoraremos a chegar ao nível dos EUA.

Startup, uma ideia ou um negócio?

No meu ponto de vista, outro dos problemas da propagação do termo, prende-se com o facto de não haver esclarecimentos suficientes para os jovens que têm ideias inovadoras e desejam dar-lhes vida. Sim, porque startup não é a ideia, é o negócio. Um negócio como qualquer outro, ou seja, uma empresa. Ninguém explica que criar uma Startup, é criar uma empresa, com tudo o que daí advém, bom e mau. Direitos e obrigações. Faturação e impostos. Lucros e prejuízos, bem… normalmente, numa fase inicial mais prejuízos que lucros. Uma empresa precisa de gente com ideias, mas também precisa de gente capacitada para a gestão e finanças, com conhecimento de mercado e expansão, mais ainda, se realmente for uma Startup e estiver dentro da área tecnológica.

A nossa cultura de apego é também um senão nesta era moderna. Ter uma ideia por si só não gera um negócio, mas abrir mão da ideia e partilhá-la com que possa acrescentar valor é ainda uma entrave na mente portuguesa. Infelizmente ainda há quem prefira ter 100% de nada que 10% de muito, só para não ter que abdicar de uma parte da sua ideia para construção de algo maior. Uma Startup precisa de partilha de conhecimento e sinergias multidisciplinares para que o seu crescimento seja rápido, eficaz e essencialmente sustentável.

Planeamento de Startup

Banalização do termo Startup

Com a propagação do termo Startup pelo mundo e pela banalização do sentido que lhe é atribuído, quase todas as empresas que estão a iniciar a sua laboração passaram a autodenominar-se de Startups. Principalmente quando os seus impulsionadores são jovens. Esta vulgarização poderia, por si só, até nem ser grave, não fossem as facilidades empresariais que lhe são associadas. Agora, qualquer empresa recente se vê como uma Startup. Não importa se é um café, um restaurante, uma florista, um barbeiro, uma loja de roupa, em Portugal, para os seus promotores, todas são vistas como Startups. Todas se consideram aptas a investimento externo, e a tratamento diferenciado de empresas já existentes no sector. Mesmo que a ideia não seja disruptiva, não seja nova, não venha resolver um problema, não acrescente valor ao mercado e principalmente não seja altamente escalável.

Ora, se uma Startup é um projecto empresarial inovador incipiente, essencialmente na área tecnológica, que pressupõe um crescimento rápido e altamente escalável, todas as outras são apenas empresas. Empresas recentes que podem muito bem ter potencial na sua área e localização, podem até ser financeiramente interessantes e altamente rentáveis, mas nem por isso são denominadas de Startup.

O que me parece mais preocupante é que os jovens, considerem que criar uma Startup é algo diferente de criar uma empresa, dando-lhe até uma conotação de desvalorização ao risco e à responsabilidade. Continua a não se fomentar a educação empresarial e financeira num país e num meio, em que queremos cada vez mais evoluir e onde somos cada vez mais motivados a empreender.

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